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segunda-feira, 19 de março de 2012

Amor em prosa e verso


Coluna esta escrita para o Selo Brasileiro, sobre Literatura e Filosofia, que contará com o escritor Allan Pitz e convidados



          Escolhemos um tema recorrente na literatura para inaugurarmos nossa coluna semanal. O amor.

          Maternal, fraternal, entre amantes. Não importa. Explorado por todos os ângulos, é recheio concreto para nossos anseios, e, quiçá diria, para nossos livros.

          Nas fórmulas mágicas para um bom tema, lá está em destaque.

          Se considerarmos a filosofia, como os gregos a encaravam, a própria busca da felicidade, teremos que colocar o assunto no topo do Olimpo.

          Faremos, então, uma breve abordagem, explorando os caminhos sinuosos da realidade e da literatura.

          Puro. O amor de mãe é explorado como algo transcendente, próximo ao do próprio Criador. Sacrificado e recompensado. Está no primeiro abraço e beijo desinteressados, na confiança da compreensão de nossas falhas, tropeços. Está na nossa redenção. Seria a chave para sentirmos a plenitude das coisas. Ainda que a psicologia o considere como um mito, incerto, muitas vezes inseguro, a verdade é que ele traduz a própria ambiguidade humana. No Soneto de La Muerte, de Gabriela Mistral, lá se vai a barca com a mãe da poetiza. E quem pode julgar os caminhos de uma mãe, que dedicou-se a amar e cuidar dos filhos? Só Deus o pode fazer.

          Há quem diga que a nossa existência deve ser cercada de amigos. Amizades desinteressadas, criadas por laços inespecíficos, que não envolvem as realidades mundanas, mas as espirituais. Algo como uma empatia disseminada nos dias e anos, que pode advir de um laço familiar, como irmãos, ou mesmo, do convívio. Uma cumplicidade nos erros e nos acertos. A mão amiga que afaga, mostra a realidade, ajuda a nos levantar de uma situação de desânimo. Que compartilha das felicidades, chora com as tristezas e, às vezes, mesmo que momentaneamente ausente, reaparece quando realmente precisamos. Nas palavras de Aristóteles: Dois amigos são uma mesma alma vivendo em dois corpos. Seria como Bia e Mariana, personagens do livro Você Tem Meia Hora da Camila Silva Nascimento, duas amigas praticamente irmãs, que se ajudam. Ou mesmo, a bela narrativa de Marcos Bulzara, no Arquiteto do Esquecimento, exteriorizado pelo companheirismo entre Doran e Constantine, que faz o protagonista passar a vida toda à procura da irmã e do perdão.

          O tema mais explosivo, no entanto, com certeza, é o amor entre duas pessoas que se entregam além da amizade.

          Para este, a literatura e a vida real, desfilam uma série de soluções.

          Há o flerte, aquele fugaz sentimento que se apossa de uma das partes, com o mero intuito da conquista. A satisfação pura do ego. A aventura pela aventura. O culto às palavras de Vinicius de Morais sobre o amor: Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure. A certeza de que só há a aproximação entre um homem e uma mulher que seja ligado ao ato sexual.  A amizade sincera relegada ao segundo plano. A chama, num monte de palha seca, cujas labaredas se elevam ao cume do vulcão, espalhando-se dias depois em cinzas. O algoz, pulando pela janela da vida da outra pessoa, como um estelionatário do coração, furtando-lhe a dignidade do olhar e do último adeus. Este seria o principal traço do Don Juan, personagem fartamente celebrizado por Moliére, Pushkin, Zorrilla, Alexandre Dumas, Lord Byron, Mozart, Baudelaire, Almeida Faria, José Saramago, entre tantos outros.


          Há também o amor profundo, apaixonado, imortalizado. O amor solução. Aquele que a vida nos brinda como um presente de Deus. Não importa o obstáculo imposto. Ele é a trilha, o caminho. Ele constrói. Não podíamos deixar de lado a belíssima história entre amor e literatura de Elisabeth Barret Browning e seu esposo, o poeta, Robert Browning, que romperam a barreira do não, fugiram do destino a que estavam ordenados e se uniram em versos apaixonados por toda a vida. É de Elisabeth um dos mais belos versos escritos já por uma mulher: Amo-te em cada dia, hora e segundo: À luz do sol, na noite sossegada./E é tão pura a paixão de que me inundo/Quanto o pudor dos que não pedem nada (...) Amo-te até nas coisas mais pequenas./Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,/Ainda mais te amarei depois da morte.

          Este sentimento, quando não correspondido, rompido,  escarnecido pelo outro ou impossibilitado pela morte, gera o que agora está cientificamente provado: dor. Sim, física e profunda. Ele dilacera a alma, enfraquece a saúde, provoca doenças. Há estudos que provam que durante os seis primeiros meses após a perda do ente querido, aumenta-se em 21 vezes a chance de enfarto no miocárdio. O amor pode matar. Ora, Shakespeare não precisou de estudos rigorosos para saber o que a própria natureza humana já informava: Romeu e Julieta se entregaram à morte, pois a vida já não tinha as mesmas cores com a ausência de um deles.  Na paráfrase de Fabio Guolo, através do dragão Dryfr, e sua fúria destrutiva após a perda de sua amada e de seu bebê, em Draco Saga, demonstra a devastação da solidão. Ou a perda por Bibiana, do seu Capitão Rodrigo, no Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, em que ela daria tudo para vê-lo apenas mais uma vez e a dilaceração da sua ausência.


          O amor pode ser correspondido, profundo e eterno. Mas há fatores sociais e pessoais que impossibilitam a sua fluência. A dor  existe. Está lá. Mas a cumplicidade do sentimento os une pela vida. É um bálsamo. Não podem ser amantes, mas se tornam amigos. São leais. Claros. Límpidos. Esperançosos. Devaneiam com a loucura do amanhã. E se contentam com os mínimos gestos de carinho e de reciprocidade. Há confiança mútua no sentimento depositado no outro coração. Sabem que, se precisarem, podem contar com um ato de redenção. Estariam em Irena e Jacob, os personagens de Apátrida.

          Há também o amor doença. A insegurança. Aquele em que as partes se amam, se entregam, mas a incerteza paira sobre os protagonistas. Os resultados podem ser vários: separação, brigas, suicídio. O amor como fonte de destruição do próprio amor. Conseguimos captar entre Bentinho e Capitu, personagens de Machado de Assis, em Dom Casmurro, ou mesmo com o trágico destino de Anna Karenina de Tolstói.

          Por fim, como julgarmos o amor do outro? No mar de sentimentos que nos rodeiam, tendemos agraciar através destes estereótipos literários os amores que se nos apresentam. Não nos sendo possível compreender a avalanche que se passa dentro da vida alheia, facilmente nos colocamos a catalogar os atos, os resultados e as situações.  É melhor ser vítima, que algoz. Ser amado do que amar. Abandonado, do que abandonar. Tendemos a sentar na cadeira da justiça da alma, e darmos a sentença da vida. Talvez, apenas talvez, se Bentinho tivesse dado a oportunidade de Capitu explicar-se, o final seria outro. Mas ele estava convicto da situação.

É por isto que não seria aconselhável empreendermos a dura tarefa de darmos decisão qualquer sobre a verdade que se passa em outro ser humano, ainda que, para isto, sejamos chamados a opinar. Cada pessoa, e só ela e Deus, conhece o porquê de seus atos, a profundidade do que sente, a dor pela qual está passando, os motivos que a levaram a agir desta ou daquela maneira, ainda que os fatos, todos eles, levem a acreditar que foram premeditados em outro sentido.

          Para quem acha que literatura não tem qualquer serventia, engana-se. Pelas histórias e palavras podemos passear por sentimentos e lugares nunca vividos, abraçarmos realidades díspares das nossas, compreendermos um pouquinho mais o que se passa no coração humano e do outro.

          E com isto, refletirmos sobre a nossa própria vida!

          Um grande abraço,

          Ana Paula Bergamasco






2 comentários:

  1. Li bem rápido, voltarei para me debruçar mais sobre o texto. De antemão, meus parabéns pelo tema e, conforme vi, bem elaborado, verdadeiro, profundo.

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